Nos idos de 89

Olha só o que eu achei: um vídeo da minha primeira banda, chamada DTR, tocando no Jornal do Almoço em 1989 !

Aposto que vocês nem tinham nascido. Eu tinha acabado de fazer 16 anos.

O vídeo e o áudio tão bem toscos mas dá pra sacar.

Eu morava no oeste de Santa Catarina, numa simpática cidadezinha chamada Jaborá, na região do Contestado. Mesmo morando num lugar tão isolado, eu lia fanzines e revistas sobre rock e encomendava fitas-demo, discos e fitas de vídeocassete das novíssimas bandas do país e das gringas.

Assim eu conheci Replicantes, Defalla, Cascavelletes e tantas outras. Às vezes, nos fins de semana, meu pai vinha trabalhar em Porto Alegre e eu vinha junto. Andava pelo Bom Fim, com meus 14, 15 anos.

Tanto enchi o saco dos meus amigos de Jaborá que um deles, o Júnior Finger, começou a estudar guitarra. Outro amigo, o Joy da Silva, comprou uma bateria. Ninguém topou tocar baixo, então eu deixei o teclado de lado, comprei um baixo e passei a estudar como louco.

Eu já tinha um monte de músicas compostas e, quando começamos nossos sofríveis ensaios, fiquei inspirado e comecei a compor mais e mais. Batizamos a banda de DTR. A sigla não queria dizer nada, mas inventamos que era o nome de um composto químico.

Assim que ficamos mais afiados e afinados, começamos a ir em todos os bailes da região pra pedir que as bandas nos deixarem tocar no intervalo. Na maior parte das vezes funcionava. Entrávamos no palco com toda aquele gás e revolta juvenil e as platéias, acostumadas com vanerão, xote e fandango, ficavam apavoradas com nosso roquenrou.

Um dia meu amigo Marcos Ricardo Weissheimer, um advogado cheio de contatos, falou que o Jornal do Almoço iria fazer um programa ao vivo em Joaçaba e que estavam procurando uma banda para tocar. Joaçaba era uma cidade muitíssimo maior que Jaborá. Eles tinham prédios e sinaleiras! Eu estuda lá e adorava a cidade, apesar da maioria dos colegas me chamar de colono pelo simples fato de morar em um lugar menor.

Nos reunimos com a produção do programa e eles toparam a idéia. Avisei o DTR, mas o Joy, que era muito envergonhado, disse que não queria aparecer na TV. Então chamamos o Edson Minatti, que topou na hora. Ele estava morando em Florianópolis e disse que iria divulgar o show por lá. Quando ele chegou em Jaborá para ensaiarmos, soubemos que a tal divulgação resumia-se à uns garranchos com o nome da banda escritos nas classes e cadeiras da UFSC.

Então chegou o dia. Chovia muito. Palco gigante montado no centro de Joaçaba, as ruas lotadas de pessoas com seus guarda-chuvas para ver Jornal do Almoço ao vivo. Então o apresentador, Cacau Menezes, nos chamou. Tocamos uma música minha chamada “A Guerra Não Acabou“, uma crítica à Organização das Nações Unidas (ONU). A galera de Joaçaba viu os colonos de Jaborá subirem ao palco pra tocar o seu roquenrou pra todo o estado. Foi a Glória!

Um ano depois eu saí de Jaborá e o DTR acabou.

Agora, mais de 25 anos depois, eu consegui uma cópia em VHS, graças a Lizi Cordeiro (obrigado, querida), que gravou o programa na época.

Melhor Trilha Sonora PRÊMIO TIBICUERA 2015: Yanto Laitano (Orquestra de Brinquedos)

Foto: Adriana Marchiori

Tô bem feliz e faceiro por ter levado o PRÊMIO TIBICUERA 2015 de Melhor Trilha Sonora pelo espetáculo Orquestra de Brinquedos! Nada melhor para um espetáculo musical do que ganhar esse prêmio.

Pode parecer lugar comum, mas não tenho como não escrever isto: O melhor prêmio é contar com o carinho do nosso público querido que lota os lugares por onde passamos e que nos possibilita ter agenda cheia e bastaaante trabalho.

Meu muitíssimo obrigado para toda nossa turma!

* Elenco: Beto Chedid, Fábio Musklinho, Filipe Narcizo e Marina Mendo
* Elenco de Apoio: Amilton Ritzel, Bruna Baliari, Luiza Girardello e Matheus Herrmann
* Iluminação: Marga Ferreira
* Operação de Som: Marcelo Bullum e Thomas Dreher
* Figurino: Daniel Lion
* Cenário: Luciana Delacroix
* Produção: Marilourdes Franarin
* Assistente de Produção: Isadora Fagundes

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Ela Gosta de Garotas

4_1200px“Ela Gosta de Garotas” foi feita de um jeito totalmente diferente de tudo que eu já tinha feito. Gravei os instrumentos, recortei tudo e construí a música como uma colagem. Depois acrescentei sons “surrupiados” de video-games, da internet e de engenhocas como o “Speak & Spell“, brinquedo dos anos 70 que fala textos com voz de robô.

Além de sintetizadores e samplers também gravei o baixo, coisa que nunca tinha feito.  E, pra completar essa mistura toda, gravei theremin, aquele instrumento maluco com uma antena que se toca fazendo gestos no ar.

Esse lance de gravar assim, usando recortes, colagens e uma mistura mucho loca a lá Frank Zappa e Beck, era algo que eu queria fazer há muito tempo. E curti tanto fazer isso que já estou pensando em fazer coisas novas nessa mesma onda.

Ouça “Ela Gosta de Garotas” no youtube!

Quem gravou batera foi o Fábio “Musklinho” Bockorny (Ex-Bandalheira e TNT) e as guitarras ficaram a cargo do Beto Chedid. Os dois tocam no meu projeto Orquestra de Brinquedos. O som é produzido por mim e pelo Thomas Dreher e foi gravado no lendário Estúdio Dreher.

A letra fala de uma garota que gosta de garotas. Na real ela é bissexual. O pai dela promete matá-la e ela precisa fugir pra viver em liberdade. A idéia saiu de uma história que li em um jornal há alguns meses sobre uma garota lésbica que teve um final terrível. Então resolvi fazer um final feliz pra essa história. Mas não foi consciente, foi um lance automático. Logo depois que li a tal matéria que dei conta que estava cantando uma melodia com letra. Passei o dia todo com essa melodia na cabeça e ela só parou de tocar na minha “radio mental” quando eu terminei a composição.

Baixe “Ela Gosta de Garotas” direto do Souncloud!

Ficha Técnica:
Yanto Laitano: vozes, sintetizadores, samplers e baixo
Fábio “Musklinho” Bockorny: bateria
Beto Chedid
: guitarras

Gravado no Estúdio Dreher
Produzido por Thomas Dreher e Yanto Laitano
Fotos: Raul Krebs
Direção de arte: Luciana Delacroix
Arte: Fred Messias

 

As redes sociais estão matando os blogs

Quase todo mundo está nas redes sociais. Quase todo mundo liga seu computador ou celular e já entra no mundo do facebook e afins pra ver o que se está comentando. Não dá pra negar que as redes são ferramentas muito legais que aproximam (e afastam) as pessoas. Mas, na minha opinião, existem algumas coisas que são bem ruins. Uma delas é a morte progressiva dos blogs, em especial aqueles mantidos por autores de maneira independente.

Esses espaços virtuais, onde as pessoas escrevem sobre o que querem, estão cada vez mais sendo deixados de lado. Por que? Porque todos estão nas redes! Por isso, um texto tem muito mais alcance quando postado em uma rede social do que quando é postado em um blog. Isso acaba estimulando os autores a utilizarem cada vez mais as redes sociais e cada vez menos os blogs em um círculo vicioso que potencializa ainda mais o processo. As redes sociais estão cada vez mais fortalecidas e isso está matando todo um universo de blogs que não fazem parte delas. Isso não é nada legal.

O facebook, e afins, são uma rede dentro de uma rede que é a internet. É como um clube fechado. Um clube tem suas regras e ganhos e se alguém não se submete a elas acaba sendo barrado. Prova disso são o banimento de usuários que postam fotos com nudez. Não importa se são obras de arte ou fotos de uma mãe amamentando, se alguém postar vai sofrer penalidade. E esses clubes são padronizados. Já tentou escrever uma postagem com imagens inseridas ao longo do texto? Não dá!

Eu acho legal que existam clubes, é seguro, tem um monte de amigos e está tudo pronto e bonitinho. Mas não acho legal que por conta disso as pessoas deixem de frequentar outros espaços com formatação e conteúdo livres. Acredito que precisamos ter diversidade e não padronização. E acredito que precisamos ter outras alternativas de publicação e comunicação. Me parece que o problema não é frequentar o clube mas sim frequentar somente o clube.

Não dá pra deixar a internet virar um grande facebook.

Arquivo – Entrevista blog do Jerri Dias, 2010

Acabei de reler uma entrevista bacana que o meu amigo Jerri Dias fez comigo em maio de 2010 e que foi publicada em seu blog “Jerri Dias – Cultura, Contracultura e Humor”. Essa entrevista ficou tão legal que eu resolvi publicá-la aqui na minha página. O link original para a entrevista é esse: http://jerridias.blogspot.com.br/2010/05/yanto-laitano-entrevista.html. Gracias Jerri por liberar a publicação aqui na minha página.


 

sábado, 15 de maio de 2010
YANTO LAITANO – Entrevista


Conheci o Yanto em 1999, quando estava procurando um compositor para criar a trilha sonora do meu primeiro curta, A VINGANÇA DE KALI GARA. Nos demos bem imediatamente, pois eu não estava apenas procurando um músico que preenchesse determinados momentos no filme, mas como apreciador de trilhas sonoras desde os 13 anos, eu procurava alguém que me construísse uma alma e uma identidade para o filme e que fosse um apaixonado por trilhas como eu. E o Yanto era tudo isso e muito mais. Bom, o filme ganhou diversos prêmios, inclusive o mais do que merecido troféu de Melhor Trilha Sonora. Depois disso, realizamos mais duas felizes parcerias de curtas, onde Yanto também abocanhou mais um prêmio. Mas o Yanto não faz apenas trilhas de filmes, pois como todo artista nacional lutando por seu lugar ao sol, ele tem vários outros interesses e atividades, mas todas relacionadas à música, sua grande paixão.

Com vocês, Yanto Laitano:


Qual é a tua formação?

Eu sou graduado em música na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) onde também fiz meu Mestrado em Música. Também estudei por um tempo em Paris no IRCAM, uma instituição dedicada à pesquisa e à criação de música erudita contemporânea em Paris, e também na Hungria. Mas aprendi muito tocando por aí, tirando música de ouvido e tocando com outros músicos.

E quando rolou isso de querer ser músico e cantor? Teve algum conflito com a família por causa de sua escolha?

Nenhum conflito ! Quando minha mãe viu eu usando um sofá como se fosse um piano e fazendo experiências com um toca discos ela me levou para fazer aulas de piano. Eu devia ter uns 8 anos e morava numa cidadezinha de 3 mil habitantes no oeste de Santa Catarina chamada Jaborá, as aulas eram na cidade vizinha Joaçaba. Logo comecei compor e tocar minhas músicas nas apresentações da turma de piano. Elas sempre eram muito aplaudidas, heheh. Um pouco mais tarde eu acabei montando uma banda na minha cidadezinha. Eu enchi tanto o saco de uns amigos que eles começaram a estudar música e a tocar comigo. Então o pessoal de Joaçaba, a cidade vizinha que era maior (tinha até sinal de trânsito!) ficava tirando onda com a gente, dizendo que éramos colonos. Um belo dia rolou um Jornal do Almoço ao vivo em Joaçaba. Como Joaçaba não tinha nenhuma banda de rock, quem tocou fomos nós, os colonos ! Os caras ficaram furiosos pois os caras de Jaborá foram lá e quebraram tudo ! Ai passaram a nos respeitar, passamos de colonos a descolados. =)

Quando chegou perto do vestibular e meu pai viu que não adiantava insistir pra eu fazer medicina, ele disse que se eu quissesse ser músico eu deveria fazer faculdade de música. Então eu vim para Porto Alegre, cidade natal do meu pai, pra fazer isso.


Você compõe música erudita contemporânea, música experimental, trilha sonora para filmes e pop rock. Existe algum desses estilos musicais que você gostaria de trabalhar mais?

Gosto muito de compor trilhas pra filmes! É um lance muito inspirador ver as cenas sem música, entender o que o diretor quer passar com aquilo e então criar a música para a cena. É um processo muitíssimo mais rápido do que partir do zero. Não há nada mais pertubador do que uma página em branco pois dá pra ir para qualquer lado e o que perturba é ter que escolher um dos caminhos e deixar os outros. Então é muito interessante e tranquilo quando há uma direção determinada por algo como um roteiro ou cena de um filme.

Ultimamente eu não tenho gostado de métodos cerebrais de composição do tipo que eu costumo usar pra criar música erudita. Tenho gostado muito de compor canções e tocar rock porque é algo muito intuitivo e que possibilita trazer para fora, para o mundo, o que está lá dentro. Então a folha em branco deixa de ser assustadora pois ela pode ser preenchida com aquilo que está lá dentro. E aí essas coisas não ficam lá dentro te perturbando… então é um processo de composição natural, muito verdadeiro e saudável. E penso que esse tipo de música composta dessa maneira bate no ouvinte de uma maneira especial. Nada se compara a fazer um show e ouvir as pessoas cantando tua música !!

Como é construir uma carreira nessa área?

É algo que tem que se gostar muito porque é um processo lento. Aprender a tocar bem um instrumento leva tempo, conhecer música leva tempo, compor coisas legais leva tempo, montar uma banda, fazer o primeiro show, colocar uma música numa rádio, tudo isso leva tempo. Então se não amar profundamente fazer todo esse processo você vai desistir nas primeiras dificuldades. O fato de nossa indústria musical ter uma estrutura muito fraca e incompleta deixa tudo mais difícil. Isso faz com que um músico, além de fazer música, tenha que ser seu próprio empresário e produtor. Mesmo com as ferramentas disponíveis atualmente isso continua assim. Então eu acho que o melhor é saber um pouco de tudo.

Posso dizer como funciona comigo: a maneira como as coisas rolaram na minha vida me possibilita atuar em diversas frentes. Então eu componho trilhas para filmes, documentários, espetáculos de dança, teatro e circo, faço shows, faço direção musical de discos e espetáculos, dou aulas, escrevo projetos de lei de incentivo, recebo direitos autorais… mas é um pouquinho de grana de cada uma dessas coisas. Hoje eu vejo que essa diversidade é fundamental pra minha sobrevivência artística e financeira. Se eu ficasse somente fazendo uma dessas coisas, talvez recebesse só aquele pouquinho reverente aquela coisa o que seria ruim ! Mas como são vários pouquinhos, eles vão sendo somados e acaba dando certo.

PEÇA PARA CÃES FAMINTOS
Experimentalismo, criatividade e cara-de-pau sem limites!

Fale um pouco de seus projetos anteriores, do Ex-Machina, da Bili Rubina.

Eu estive muito tempo envolvido com arte contemporânea. Desde que eu entrei na faculdade de música, e depois no mestrado ou quando estudei na Europa, eu me afastei da música pop e me dediquei à música experimental, não-comercial. Não só trabalhei compondo esse tipo de música mas também trabalhei pra fazer com que essa música acontecesse. Participei da criação de um grupo de compositores de música experimental, chamado Ex-Machina, escrevi muitos projetos para gravação de discos, organizei turnes e festivais onde só se tocava música experimental.

Produzi diversos CDs do estilo, inclusive dos meus professores do mestrado em música. Aquilo tudo foi muito bom ! Mas chegou um momento em que não me bastava. Eu queria tocar um tipo de música que tivesse mais comunicação com o público, uma música que pudesse passar mensagens com as quais as pessoas pudessem se identificar. Então eu voltei para a música pop. Isso foi há uns três ou quatro anos e está sendo muito bom.

Cartaz do show de 10 anos da banda.

Ganhar prêmios te ajudaram na carreira? Como?

Sim, ajudam! Mesmo que o prêmio não venha acompanhado de grana, através dele sempre surgem convites pra outros trabalhos. E as pessoas, mesmo aquelas que não sabe exatamente o que o artista faz, passam a ter mais respeito por ele.

E como vai sua carreira solo, sei que tem um CD novo no forno…

O CD acabou de chegar da fábrica!! Chama-se “Horizontes e Precipícios” e tem doze canções, quatro delas já podem ser ouvidas na minha página no myspace . Resolvi fazer um CD onde o instrumento principal é o piano acompanhado por baixo e bateria.

Também fiz arranjos usando trompete, trompa, sax, cordas, clarinete mas deixei de fora as guitarras. Fiz isso propositalmente porque apesar de gostar muito do timbre de guitarra e ser fã de Harrison, Hendrix, Clapton, Zappa e tantos outros, eu penso que nesses tempos onde parece que tudo já foi feito e que paira uma mesmisse no ar, é legal abrir caminhos alternativos, buscar outras direções. Então fiz um CD de rock sem o instrumento mais característico do estilo: a guitarra. É um CD de rock sem guitarras.

Além disso, as canções possuem muitas referências, algumas bem a vista e outras escondidas, de Mário Quintana a Mutantes passando por Caetano Veloso, Charly Garcia, Ben Folds Five, Tolkien e o Sargent Peppers dos Beatles. Fiquei muito feliz com o resultado… gravei tudo como eu queria e não deixei passar nada que eu não estivesse satisfeito.

Então eu achei que ficou ducaralho! Iremos começar a vender o CD nos show como pré-lançamento. Quando rolar o lançamento oficial vamos avisar todo mundo !

Show de 25 anos da rádio Ipanema FM.

Já que esse blog é lido por muita gente jovem, que conselho você daria pra quem está pensando se vale a pena ser músico?

Se você pensa em ser músico pra ficar famoso e milionário é melhor escolher outra profissão. O que eu quero dizer é que você pode muito bem ficar famoso e rico mas esse não pode ser o objetivo! Isso é uma consequência, é algo que acontece com alguém que é um músico excepcionalmente bom ou que tem algo especial pra dizer para o mundo.

A maioria das pessoas entra na música para ganhar algo do mundo mas é o contrário, tem que criar algo de bom pro mundo. E tem que ter muuuita paciência porque as coisas demoram. E como as coisas demoram é bom estar curtindo muito o que se faz.

 

Resgate do vídeo de “Meu Amor” no Programa Radar da TVE/RS

Recentemente a TVE/RS retirou todos, ou grande parte, dos vídeos do Programa Radar do youtube, incluindo os vídeos das minhas participações.

Alguns vídeos foram postados novamente mas sem indexação, o que impossibilita a busca por título da música ou nome de banda.

Sempre tive muito carinho e admiração pelo programa Radar e pela TVE mas até agora não entendi o porquê desse desserviço. Mas escrevo este texto pois consegui resgatar o vídeo de “Meu Amor” e coloquei no meu canal no youtube. Agora ninguém vai deletar !

Libertad

Depois de uma série de fatos, ou coincidências, que aconteceram comigo em 2012, fui parar em Cuba onde fiz três apresentações e gravei um clipe.

O convite veio através de uma carta que recebi da jornalista cubana Bolivia Tamara Cruz Martínez. Ela me convidava para tocar no Centro Cultural “El Mejunje”, que fica na cidade de Santa Clara, capital da província de Villa Clara em Cuba. Dias depois encontrei, por acaso, um dos organizadores de uma comitiva do governo do estado do Rio Grande do Sul que viajaria para participar da Feira Internacional de Havana. Ele já tinha me ouvido tocar algumas vezes e, quando soube da tal carta que recebi, me convidou para participar da comitiva tocando em eventos da agenda oficial da viagem. Aceitei e, em menos de um mês, desembarquei naquela belíssima ilha caribenha.

Eu era o único músico no meio de muitos empresários e alguns diplomatas. Fiz um show em Havana, no Melia Habana, e dois em Santa Clara, cidade chave na Revolução Cubana. Em Santa Clara, toquei na peña cultural “La casa como un árbol” e no maravilhoso “El Mejunje”. Andei em lugares cheios de turistas, em outros bem longe das lentes estrangeiras e fiquei muito impressionado com tudo que vi, com as coisas boas e as ruins. No meio daquele experiência intensa eu escrevi uma canção chamada “Libertad”, uma homenagem a “Los Cinco” de Cuba e a todos os homens e mulheres privados injustamente de suas liberdades. Musicalmente, é uma mistura de candombe, ciranda e ijexá, ritmos de raiz africana e música pop.

Incluí a nova canção nos shows de Santa Clara e, quando voltei para Havana, vi surgir a oportunidade de gravar um clipe com alguns jovens cineastas brasileiros da Escuela Internacional de Cine, escola de cinema criada por Gabriel García Marquez. Rodamos o clipe pelas ruas do centro antigo de La Havana. Como eu ainda não tinha a música gravada, tive que cantar ouvindo a marcação de tempo de um metrônomo que coloquei no bolso. Meses depois eu gravei a música em Porto Alegre, usando a mesma marcação de metrônomo, o que possibilitou sincronizar as imagens com a música.

Centro antigo de La Havana com a baía ao fundo.

 

Depois que voltei de Cuba, a música me pareceu panfletária demais. Então, eu a coloquei em uma gaveta por dois anos até que, em dezembro de 2014, com a histórica reaproximação entre Cuba e Estados Unidos, os cinco cubanos foram libertados. Isso fez com que eu passasse a ver a música de uma maneira diferente. Não me parecia mais algo panfletário mas sim algo como uma celebração. Por isso, decidi lançar o material.

Não sabemos quantos homens e mulheres encontram-se presos injustamente no mundo, na América Latina ou no Brasil. Não sabemos nem os nomes da maioria deles. Uma dessas pessoas se chama Rafael Vieira, negro, morador de rua que está preso desde junho de 2013 porque carregava um frasco de Pinho Sol e outro de água sanitária durante uma manifestação no Rio de Janeiro. Essa canção também é dedicada ao Rafael e a todas as pessoas que estão e/ou já se encontram em situações semelhantes.

O clipe foi filmado por Etiene Faccin e João Gabriel Riveres, editado por Tula Anagnostopoulos, que assinam a direção em conjunto. A música foi gravada, mixada e masterizada no Estúdio Dreher e contou com a participação dos músicos Duda Guedes (bateria, percussão, coro), Beto Chedid (violões, charango, guitarra, coro) e Filipe Narcizo (baixo elétrico).

 Clique aqui para ver o clipe.

Y~

Como surgiu a Orquestra de Brinquedos

Orquestra de Brinquedos, foto Luiza Girardello

Orquestra de Brinquedos

Num fim de tarde de 2012 eu entrei em uma lojas de instrumentos musicais e vi um jogo de sinos musicais. Eram quatro pares de sininhos coloridos, cada um com uma nota musical diferente. Juntos os sinos completavam uma escala. Pensei que quatro músicos, cada um deles com um par de sinos, seriam capazes de tocar melodias em conjunto. A música seria tocada com as melodias passando de sininho em sininho, o que resultaria em um tipo de coreografia muito interessante. Imaginei que, para o conjunto ficar completo, eu ainda precisaria de um quinto músico para fazer a parte rítmica.

Na mesma loja, além dos sinos musicais, também havia uma bateria e um piano de brinquedo. Então me dei conta de que esses músicos poderiam tocar outros instrumentos de brinquedo em uma espécie de orquestra. Para a idéia ficar ainda mais interessante, os músicos também deveriam ser “transformados” em brinquedos, então pensei em soldadinhos de chumbo. Assim estava completa a idéia para a criação da Orquestra de Brinquedos, inclusive com o nome. Foi um daqueles momentos em que as coisas vão se encaixando de tal maneira que parece mágica.

Sai da loja com os instrumentos comprados. Depois garimpei outros instrumentos na internet, como guitarra e contrabaixo de brinquedo. Pra completar, figurino e maquiagem foram especialmente criados para transformar os músicos em brinquedos. Para serem os soldadinhos, convidei três músicos que já trabalhavam comigo em outros projetos, Beto Chedid, Filipe Narcizo e Fábio Muscklinho. Para ter um toque feminino de uma soldadinha, a atriz e musicista Grasiela Muller foi convidada. Depois, quando a Grasi mudou-se para o Rio de Janeiro, a também atriz e musicista Marina Mendo foi convocada para entrar em seu lugar.

foto: Raul Krebs

Da esquerda para a direita: Beto Chedid, Filipe Narcizo, Yanto Laitano, Fábio Muscklinho e Marina Mendo.

O repertório, com temática infantil e conhecido do público de todas as idades, também foi escolhido de maneira especial: cantigas de roda, como “Marcha Soldado” e “Alecrim”, canções folclóricas brasileiras, como “Pezinho”, obras de compositores consagrados da música erudita como “O Trenzinho do Caipira”, de Villa-Lobos, e até pérolas da música pop como “Yellow Submarine” dos Beatles.

Os instrumentos de brinquedos ajudam a definir os arranjos das músicas e são fundamentais no processo criativo. Estou sempre pesquisando e comprando brinquedos que possam ser usados pela Orquestra. Tem alguns que eu compro que acabamos nem usando. Outros ficam em cima da minha estante até surgir uma ideia pra usar esse brinquedo de um jeito legal pra fazer música.

Muitas músicas e arranjos surgem do próprio brinquedo musical. Por exemplo, a idéia de tocar “Danúbio Azul” veio das notas musicas das buzinas de bicicleta. Quando eu ouvi o Muscklinho tocar algumas buzinas que estavam acopladas ao seu washboard, me dei conta de que elas reproduziam exatamente as notas de uma parte da melodia da música “Danúbio Azul”. Então essa música foi incorporada ao repertório. É sempre muito engraçado quando uma música está sendo tocada pelos instrumentos e, de repente, as buzinas respondem tocando uma parte da melodia.

É difícil saber quem se diverte mais em uma apresentação da Orquestra de Brinquedos: nós ou o público.