Arquivo – Entrevista blog do Jerri Dias, 2010

Acabei de reler uma entrevista bacana que o meu amigo Jerri Dias fez comigo em maio de 2010 e que foi publicada em seu blog “Jerri Dias – Cultura, Contracultura e Humor”. Essa entrevista ficou tão legal que eu resolvi publicá-la aqui na minha página. O link original para a entrevista é esse: http://jerridias.blogspot.com.br/2010/05/yanto-laitano-entrevista.html. Gracias Jerri por liberar a publicação aqui na minha página.


 

sábado, 15 de maio de 2010
YANTO LAITANO – Entrevista


Conheci o Yanto em 1999, quando estava procurando um compositor para criar a trilha sonora do meu primeiro curta, A VINGANÇA DE KALI GARA. Nos demos bem imediatamente, pois eu não estava apenas procurando um músico que preenchesse determinados momentos no filme, mas como apreciador de trilhas sonoras desde os 13 anos, eu procurava alguém que me construísse uma alma e uma identidade para o filme e que fosse um apaixonado por trilhas como eu. E o Yanto era tudo isso e muito mais. Bom, o filme ganhou diversos prêmios, inclusive o mais do que merecido troféu de Melhor Trilha Sonora. Depois disso, realizamos mais duas felizes parcerias de curtas, onde Yanto também abocanhou mais um prêmio. Mas o Yanto não faz apenas trilhas de filmes, pois como todo artista nacional lutando por seu lugar ao sol, ele tem vários outros interesses e atividades, mas todas relacionadas à música, sua grande paixão.

Com vocês, Yanto Laitano:


Qual é a tua formação?

Eu sou graduado em música na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) onde também fiz meu Mestrado em Música. Também estudei por um tempo em Paris no IRCAM, uma instituição dedicada à pesquisa e à criação de música erudita contemporânea em Paris, e também na Hungria. Mas aprendi muito tocando por aí, tirando música de ouvido e tocando com outros músicos.

E quando rolou isso de querer ser músico e cantor? Teve algum conflito com a família por causa de sua escolha?

Nenhum conflito ! Quando minha mãe viu eu usando um sofá como se fosse um piano e fazendo experiências com um toca discos ela me levou para fazer aulas de piano. Eu devia ter uns 8 anos e morava numa cidadezinha de 3 mil habitantes no oeste de Santa Catarina chamada Jaborá, as aulas eram na cidade vizinha Joaçaba. Logo comecei compor e tocar minhas músicas nas apresentações da turma de piano. Elas sempre eram muito aplaudidas, heheh. Um pouco mais tarde eu acabei montando uma banda na minha cidadezinha. Eu enchi tanto o saco de uns amigos que eles começaram a estudar música e a tocar comigo. Então o pessoal de Joaçaba, a cidade vizinha que era maior (tinha até sinal de trânsito!) ficava tirando onda com a gente, dizendo que éramos colonos. Um belo dia rolou um Jornal do Almoço ao vivo em Joaçaba. Como Joaçaba não tinha nenhuma banda de rock, quem tocou fomos nós, os colonos ! Os caras ficaram furiosos pois os caras de Jaborá foram lá e quebraram tudo ! Ai passaram a nos respeitar, passamos de colonos a descolados. =)

Quando chegou perto do vestibular e meu pai viu que não adiantava insistir pra eu fazer medicina, ele disse que se eu quissesse ser músico eu deveria fazer faculdade de música. Então eu vim para Porto Alegre, cidade natal do meu pai, pra fazer isso.


Você compõe música erudita contemporânea, música experimental, trilha sonora para filmes e pop rock. Existe algum desses estilos musicais que você gostaria de trabalhar mais?

Gosto muito de compor trilhas pra filmes! É um lance muito inspirador ver as cenas sem música, entender o que o diretor quer passar com aquilo e então criar a música para a cena. É um processo muitíssimo mais rápido do que partir do zero. Não há nada mais pertubador do que uma página em branco pois dá pra ir para qualquer lado e o que perturba é ter que escolher um dos caminhos e deixar os outros. Então é muito interessante e tranquilo quando há uma direção determinada por algo como um roteiro ou cena de um filme.

Ultimamente eu não tenho gostado de métodos cerebrais de composição do tipo que eu costumo usar pra criar música erudita. Tenho gostado muito de compor canções e tocar rock porque é algo muito intuitivo e que possibilita trazer para fora, para o mundo, o que está lá dentro. Então a folha em branco deixa de ser assustadora pois ela pode ser preenchida com aquilo que está lá dentro. E aí essas coisas não ficam lá dentro te perturbando… então é um processo de composição natural, muito verdadeiro e saudável. E penso que esse tipo de música composta dessa maneira bate no ouvinte de uma maneira especial. Nada se compara a fazer um show e ouvir as pessoas cantando tua música !!

Como é construir uma carreira nessa área?

É algo que tem que se gostar muito porque é um processo lento. Aprender a tocar bem um instrumento leva tempo, conhecer música leva tempo, compor coisas legais leva tempo, montar uma banda, fazer o primeiro show, colocar uma música numa rádio, tudo isso leva tempo. Então se não amar profundamente fazer todo esse processo você vai desistir nas primeiras dificuldades. O fato de nossa indústria musical ter uma estrutura muito fraca e incompleta deixa tudo mais difícil. Isso faz com que um músico, além de fazer música, tenha que ser seu próprio empresário e produtor. Mesmo com as ferramentas disponíveis atualmente isso continua assim. Então eu acho que o melhor é saber um pouco de tudo.

Posso dizer como funciona comigo: a maneira como as coisas rolaram na minha vida me possibilita atuar em diversas frentes. Então eu componho trilhas para filmes, documentários, espetáculos de dança, teatro e circo, faço shows, faço direção musical de discos e espetáculos, dou aulas, escrevo projetos de lei de incentivo, recebo direitos autorais… mas é um pouquinho de grana de cada uma dessas coisas. Hoje eu vejo que essa diversidade é fundamental pra minha sobrevivência artística e financeira. Se eu ficasse somente fazendo uma dessas coisas, talvez recebesse só aquele pouquinho reverente aquela coisa o que seria ruim ! Mas como são vários pouquinhos, eles vão sendo somados e acaba dando certo.

PEÇA PARA CÃES FAMINTOS
Experimentalismo, criatividade e cara-de-pau sem limites!

Fale um pouco de seus projetos anteriores, do Ex-Machina, da Bili Rubina.

Eu estive muito tempo envolvido com arte contemporânea. Desde que eu entrei na faculdade de música, e depois no mestrado ou quando estudei na Europa, eu me afastei da música pop e me dediquei à música experimental, não-comercial. Não só trabalhei compondo esse tipo de música mas também trabalhei pra fazer com que essa música acontecesse. Participei da criação de um grupo de compositores de música experimental, chamado Ex-Machina, escrevi muitos projetos para gravação de discos, organizei turnes e festivais onde só se tocava música experimental.

Produzi diversos CDs do estilo, inclusive dos meus professores do mestrado em música. Aquilo tudo foi muito bom ! Mas chegou um momento em que não me bastava. Eu queria tocar um tipo de música que tivesse mais comunicação com o público, uma música que pudesse passar mensagens com as quais as pessoas pudessem se identificar. Então eu voltei para a música pop. Isso foi há uns três ou quatro anos e está sendo muito bom.

Cartaz do show de 10 anos da banda.

Ganhar prêmios te ajudaram na carreira? Como?

Sim, ajudam! Mesmo que o prêmio não venha acompanhado de grana, através dele sempre surgem convites pra outros trabalhos. E as pessoas, mesmo aquelas que não sabe exatamente o que o artista faz, passam a ter mais respeito por ele.

E como vai sua carreira solo, sei que tem um CD novo no forno…

O CD acabou de chegar da fábrica!! Chama-se “Horizontes e Precipícios” e tem doze canções, quatro delas já podem ser ouvidas na minha página no myspace . Resolvi fazer um CD onde o instrumento principal é o piano acompanhado por baixo e bateria.

Também fiz arranjos usando trompete, trompa, sax, cordas, clarinete mas deixei de fora as guitarras. Fiz isso propositalmente porque apesar de gostar muito do timbre de guitarra e ser fã de Harrison, Hendrix, Clapton, Zappa e tantos outros, eu penso que nesses tempos onde parece que tudo já foi feito e que paira uma mesmisse no ar, é legal abrir caminhos alternativos, buscar outras direções. Então fiz um CD de rock sem o instrumento mais característico do estilo: a guitarra. É um CD de rock sem guitarras.

Além disso, as canções possuem muitas referências, algumas bem a vista e outras escondidas, de Mário Quintana a Mutantes passando por Caetano Veloso, Charly Garcia, Ben Folds Five, Tolkien e o Sargent Peppers dos Beatles. Fiquei muito feliz com o resultado… gravei tudo como eu queria e não deixei passar nada que eu não estivesse satisfeito.

Então eu achei que ficou ducaralho! Iremos começar a vender o CD nos show como pré-lançamento. Quando rolar o lançamento oficial vamos avisar todo mundo !

Show de 25 anos da rádio Ipanema FM.

Já que esse blog é lido por muita gente jovem, que conselho você daria pra quem está pensando se vale a pena ser músico?

Se você pensa em ser músico pra ficar famoso e milionário é melhor escolher outra profissão. O que eu quero dizer é que você pode muito bem ficar famoso e rico mas esse não pode ser o objetivo! Isso é uma consequência, é algo que acontece com alguém que é um músico excepcionalmente bom ou que tem algo especial pra dizer para o mundo.

A maioria das pessoas entra na música para ganhar algo do mundo mas é o contrário, tem que criar algo de bom pro mundo. E tem que ter muuuita paciência porque as coisas demoram. E como as coisas demoram é bom estar curtindo muito o que se faz.

 

Resgate do vídeo de “Meu Amor” no Programa Radar da TVE/RS

Recentemente a TVE/RS retirou todos, ou grande parte, dos vídeos do Programa Radar do youtube, incluindo os vídeos das minhas participações.

Alguns vídeos foram postados novamente mas sem indexação, o que impossibilita a busca por título da música ou nome de banda.

Sempre tive muito carinho e admiração pelo programa Radar e pela TVE mas até agora não entendi o porquê desse desserviço. Mas escrevo este texto pois consegui resgatar o vídeo de “Meu Amor” e coloquei no meu canal no youtube. Agora ninguém vai deletar !

Libertad

Depois de uma série de fatos, ou coincidências, que aconteceram comigo em 2012, fui parar em Cuba onde fiz três apresentações e gravei um clipe.

O convite veio através de uma carta que recebi da jornalista cubana Bolivia Tamara Cruz Martínez. Ela me convidava para tocar no Centro Cultural “El Mejunje”, que fica na cidade de Santa Clara, capital da província de Villa Clara em Cuba. Dias depois encontrei, por acaso, um dos organizadores de uma comitiva do governo do estado do Rio Grande do Sul que viajaria para participar da Feira Internacional de Havana. Ele já tinha me ouvido tocar algumas vezes e, quando soube da tal carta que recebi, me convidou para participar da comitiva tocando em eventos da agenda oficial da viagem. Aceitei e, em menos de um mês, desembarquei naquela belíssima ilha caribenha.

Eu era o único músico no meio de muitos empresários e alguns diplomatas. Fiz um show em Havana, no Melia Habana, e dois em Santa Clara, cidade chave na Revolução Cubana. Em Santa Clara, toquei na peña cultural “La casa como un árbol” e no maravilhoso “El Mejunje”. Andei em lugares cheios de turistas, em outros bem longe das lentes estrangeiras e fiquei muito impressionado com tudo que vi, com as coisas boas e as ruins. No meio daquele experiência intensa eu escrevi uma canção chamada “Libertad”, uma homenagem a “Los Cinco” de Cuba e a todos os homens e mulheres privados injustamente de suas liberdades. Musicalmente, é uma mistura de candombe, ciranda e ijexá, ritmos de raiz africana e música pop.

Incluí a nova canção nos shows de Santa Clara e, quando voltei para Havana, vi surgir a oportunidade de gravar um clipe com alguns jovens cineastas brasileiros da Escuela Internacional de Cine, escola de cinema criada por Gabriel García Marquez. Rodamos o clipe pelas ruas do centro antigo de La Havana. Como eu ainda não tinha a música gravada, tive que cantar ouvindo a marcação de tempo de um metrônomo que coloquei no bolso. Meses depois eu gravei a música em Porto Alegre, usando a mesma marcação de metrônomo, o que possibilitou sincronizar as imagens com a música.

Centro antigo de La Havana com a baía ao fundo.

 

Depois que voltei de Cuba, a música me pareceu panfletária demais. Então, eu a coloquei em uma gaveta por dois anos até que, em dezembro de 2014, com a histórica reaproximação entre Cuba e Estados Unidos, os cinco cubanos foram libertados. Isso fez com que eu passasse a ver a música de uma maneira diferente. Não me parecia mais algo panfletário mas sim algo como uma celebração. Por isso, decidi lançar o material.

Não sabemos quantos homens e mulheres encontram-se presos injustamente no mundo, na América Latina ou no Brasil. Não sabemos nem os nomes da maioria deles. Uma dessas pessoas se chama Rafael Vieira, negro, morador de rua que está preso desde junho de 2013 porque carregava um frasco de Pinho Sol e outro de água sanitária durante uma manifestação no Rio de Janeiro. Essa canção também é dedicada ao Rafael e a todas as pessoas que estão e/ou já se encontram em situações semelhantes.

O clipe foi filmado por Etiene Faccin e João Gabriel Riveres, editado por Tula Anagnostopoulos, que assinam a direção em conjunto. A música foi gravada, mixada e masterizada no Estúdio Dreher e contou com a participação dos músicos Duda Guedes (bateria, percussão, coro), Beto Chedid (violões, charango, guitarra, coro) e Filipe Narcizo (baixo elétrico).

 Clique aqui para ver o clipe.

Y~

Como surgiu a Orquestra de Brinquedos

Orquestra de Brinquedos, foto Luiza Girardello

Orquestra de Brinquedos

Num fim de tarde de 2012 eu entrei em uma lojas de instrumentos musicais e vi um jogo de sinos musicais. Eram quatro pares de sininhos coloridos, cada um com uma nota musical diferente. Juntos os sinos completavam uma escala. Pensei que quatro músicos, cada um deles com um par de sinos, seriam capazes de tocar melodias em conjunto. A música seria tocada com as melodias passando de sininho em sininho, o que resultaria em um tipo de coreografia muito interessante. Imaginei que, para o conjunto ficar completo, eu ainda precisaria de um quinto músico para fazer a parte rítmica.

Na mesma loja, além dos sinos musicais, também havia uma bateria e um piano de brinquedo. Então me dei conta de que esses músicos poderiam tocar outros instrumentos de brinquedo em uma espécie de orquestra. Para a idéia ficar ainda mais interessante, os músicos também deveriam ser “transformados” em brinquedos, então pensei em soldadinhos de chumbo. Assim estava completa a idéia para a criação da Orquestra de Brinquedos, inclusive com o nome. Foi um daqueles momentos em que as coisas vão se encaixando de tal maneira que parece mágica.

Sai da loja com os instrumentos comprados. Depois garimpei outros instrumentos na internet, como guitarra e contrabaixo de brinquedo. Pra completar, figurino e maquiagem foram especialmente criados para transformar os músicos em brinquedos. Para serem os soldadinhos, convidei três músicos que já trabalhavam comigo em outros projetos, Beto Chedid, Filipe Narcizo e Fábio Muscklinho. Para ter um toque feminino de uma soldadinha, a atriz e musicista Grasiela Muller foi convidada. Depois, quando a Grasi mudou-se para o Rio de Janeiro, a também atriz e musicista Marina Mendo foi convocada para entrar em seu lugar.

foto: Raul Krebs

Da esquerda para a direita: Beto Chedid, Filipe Narcizo, Yanto Laitano, Fábio Muscklinho e Marina Mendo.

O repertório, com temática infantil e conhecido do público de todas as idades, também foi escolhido de maneira especial: cantigas de roda, como “Marcha Soldado” e “Alecrim”, canções folclóricas brasileiras, como “Pezinho”, obras de compositores consagrados da música erudita como “O Trenzinho do Caipira”, de Villa-Lobos, e até pérolas da música pop como “Yellow Submarine” dos Beatles.

Os instrumentos de brinquedos ajudam a definir os arranjos das músicas e são fundamentais no processo criativo. Estou sempre pesquisando e comprando brinquedos que possam ser usados pela Orquestra. Tem alguns que eu compro que acabamos nem usando. Outros ficam em cima da minha estante até surgir uma ideia pra usar esse brinquedo de um jeito legal pra fazer música.

Muitas músicas e arranjos surgem do próprio brinquedo musical. Por exemplo, a idéia de tocar “Danúbio Azul” veio das notas musicas das buzinas de bicicleta. Quando eu ouvi o Muscklinho tocar algumas buzinas que estavam acopladas ao seu washboard, me dei conta de que elas reproduziam exatamente as notas de uma parte da melodia da música “Danúbio Azul”. Então essa música foi incorporada ao repertório. É sempre muito engraçado quando uma música está sendo tocada pelos instrumentos e, de repente, as buzinas respondem tocando uma parte da melodia.

É difícil saber quem se diverte mais em uma apresentação da Orquestra de Brinquedos: nós ou o público.

 

 

 

Minha última conversa com Nico Nicolaiewsky

Fevereiro de 2015. Faz um ano que o meu querido amigo Nico Nicolaiewsky partiu. Resolvi escrever este texto pra registrar alguns bons momentos e compartilhar algumas idéias que trocamos.

Minha última conversa com o Nico foi depois na minha casa, um apartamento no Bom Fim onde moro com minha mulher, Lu, e minha filha Cecília. A Lu fez um kibe maravilhoso e a Cecília tocou piano para nós. Quando ela cantou o tema de Pokemon, o Nico ficou muito feliz e disse que ela fazia uma baixaria (os baixos tocados pela mão esquerda) que ele mesmo não fazia.

Depois que a maioria dos amigos foi embora, a Lu e a Márcia, esposa do Nico, ficaram na mesa conversando enquanto eu e o Nico sentamos estrategicamente em sofás perto da sacada para bebermos e fumarmos sem incomodar ninguém.

Nossa conversa foi se encaminhando para um assunto que músicos costumam gastar intermináveis noites, geralmente sem chegar a nenhuma conclusão: o “sucesso”. Sucesso escrito assim mesmo entre aspas pra deixar claro que é um termo relativo e questionável além de batido e frequentemente usado de maneira superficial. Uma conversa sobre esse tal de “sucesso” pode descambar tanto numa filosofia barata mas divertida de boteco, quanto pode se mostrar como uma conversa realmente reveladora.

Nico e Yanto

Falamos dos nossos discos, como tinham sido feitos e como tinham sido recebidos pelo público e mídia. Eu falei sobre o disco da minha antiga banda, a Bili Rubina, que foi composto e gravado para que todas as suas músicas fossem radiofônicas e comerciais, exceto uma, e como justamente essa música tinha sido a que realmente tocou muito, a ponto de ser considerada um “sucesso”. Também falei que depois disso nunca mais tinha composto ou gravado algo pensando na questão radiofônica/comercial.

Então o Nico contou sobre o seu disco “Onde está o amor” que, além de ter sido lançado com ampla divulgação local, foi bastante trabalhado no centro do país por um renomado divulgador de São Paulo. Ele me disse: Sabe quantas consultas eu recebi pelo ‘Onde está o Amor’? Nenhuma! “Nenhum pedido de orçamento, nenhum show vendido”. “Eu ia nas entrevistas pra divulgar o disco e me perguntavam como estava o Tangos & Tragédias!”.

E seguimos falando como todas essas coisas que nós, artistas, realizamos, que dão certo ou que dão errado, na verdade não importam muito. Não importam porque um artista que faz algo de verdade, no fundo, não faz pra ser um sucesso ou pra ganhar dinheiro. Essas coisas são secundárias! Nós compomos, tocamos, gravamos e lançamos discos por uma necessidade artística. E Nós realizamos todas essas coisas porque elas gritam dentro de nós. Um artista tem uma necessidade vital de fazer com que essas coisas saiam da sua cabeça e de seu coração e ganhe vida. Mesmo que seja um disco que ninguém escute. Mesmo que seja um show que ninguém assista.

E era um tango.

Quando um artista se dá conta de que é esse o verdadeiro motivo, ele vê que a arte que ele faz não é para agradar a ninguém, a não ser ele mesmo. Além disso, fazer concessões para tornar uma obra artística mais aceitável, ou inaceitável, é uma grande bobagem. Então, nesse ponto da conversa, um alívio pairou no ar. Eu e Nico enchemos mais uma vez nossos copos e encostamos nos sofás, sorridentes, compartilhando um silêncio bom. Era como se uma verdade muito importante tivesse sido dita. E acho que foi mesmo.

Outra hora eu escrevo sobre algum outro papo que tivemos. =)

Ah, essas fotos no piano azul do Nico são de uma outra vez.

Abraços

Sorteio de CD no Twitter

Pra divulgar meu perfil no Twitter vou sortear um Cd. E vou mandar, especialmente autografado,  pra casa de quem ganhar !

Para participar basta seguir @yantolaitano no Twitter e dar RT na seguinte mensagem:

“Siga @yantolaitano e dê RT pra concorrer a um CD! Sorteio nesta quarta.  http://bit.ly/Afodkx “

– O sorteio vai rolar na noite de quarta, dia 18/04/2012.

– Vale qualquer tipo (copiando/colando, RT pelo botão), desde que não modifiquem a mensagem e o link.

– Quanto mais RT’s, mais chances de ganhar. Mas ATENÇÃO: Pode dar RT’s em horários diversos mas usuários que derem vários RT’s seguidos serão desclassificados.

Ajudem a divulgar!
Logo vai ter promoção pelo Facebook também. Valeu, abraços/beijos

Y~

Os Campos do Velho Oeste

Eu morei toda minha infância e adolescência numa cidadezinha do oeste de Santa Catarina cercada de colinas chamada Jaborá. Eu sempre olhava pro horizonte e queria saber o que tinha além daquelas colinas. Então comecei a subir até os lugares mais altos pra ver a paisagem e vi que sempre tinha outra colina, que parecia mais alta, à frente.

Isso, que vou contar, aconteceu em um dia qualquer de janeiro de 2007 mas a escrita só aconteceu em julho e agora, janeiro de 2012, resolvi postar. Nesse dia, por uma série de coincidências, eu tive uma visão fantástica e real de todas as colinas de uma só vez.

Fui convidado para representar um documentário, como autor da trilha sonora, no Festival de Cinema de Atibaia, São Paulo. Acabei passando uns dias agradáveis num belo hotel e recebendo uma menção honrosa da UNESCO como representante do filme.

Na volta, o avião decolou de Sampa com destino a Porto Alegre com um dia muito limpo e fui sentado no lado do avião que dava vista para a linha do litoral. O avião saiu em direção ao mar e logo, sobre Santos, desviou para o sul, acompanhando o litoral.

Quando entrou no Paraná, o piloto informou que por ordem do Cindacta II, o espaço aéreo por onde íamos passar estava fechado e que a rota foi alterada. Então o Boeing desviou para Curitiba e o piloto informou que o Cindacta II tinha fechado toda uma região aérea e alterou novamente a rota para seguiu para o Rio Grande do Sul via Chapecó.

Enquanto o Boeing voava a 35 mil pés, a geografia ia mudando rapidamente. Do imenso azul do mar e do amarelo da linha das praias, passou por um verde escuro da serra e para os campos do planalto de Curitiba. Pequenas cidades entre as plantações.

Aos poucos o verde amarelado desses campos foi trocando de cor. Eram umas cinco da tarde, o avião estava muito alto e o céu muito azul. O relevo continuava plano e vi surgirem rios longos e finos. As curvas do rio, prateadas pelo sol, serpenteavam em uma imensa região plana com campos amarelos e verdes mais vivos a se perder no horizonte.

Várias cidades de diversos tamanhos pontilhavam, distantes ou à margem dos rios, na longa região que eu via pela janela do avião. Somente algumas suaves elevações naquela geografia plana.

Por mais de meia hora o avião cruzou aqueles campos. Sempre iam surgindo rios entre regiões imensas de campos com formatos retangulares, tamanho regular e de uma cor familiar: varias tonalidades de amarelos e verde, um vermelho-terra bem forte e algumas manchas verde-forte com formatos irregulares. Avistei muitas cidades, e aglomerados de cidades pequenas e médias entre os campos ou à margem dos rios ao longo de extensas áreas.

Naquele cenário imenso também foram surgindo algumas construções brancas que aos poucos foram ficando cada vez mais freqüentes. Eram aviários. Galinheiros ! Em um momento, vi algumas poucas construções bem maiores, que descobri pelo Google Earth serem fábricas de celulose.

Então surgiu ao longe um rio gigantesco, o Uruguai, muito mais extenso do que os outros e que acompanhava a linha do horizonte da minha janela. A cor dos campos era muito familiar. Eu tinha visto cada uma daquelas cores durante muitos anos. Vi cidadezinhas que pareciam muito próximas vistas daquela altitude, mas que, eu sabia, eram muito mais longe do que pareciam ser.

O rio Uruguai foi aumentando no meu campo de visão. O imenso rio seguia formando enormes curvas, braços, e se espalhava como lagos. Os aviários foram aos poucos, tornando-se a construção mais freqüente e alguns eram ainda maiores do que os anteriores.

Então, o avião sobrevoou Chapecó, uma cidade bem maior que todas as outras que tinham aparecido naquela meia hora. Quando o Boeing virou para o sul, inclinando-se levemente para a esquerda, toda região que tínhamos sobrevoado surgiu no meu campo de visão.

O avião cruzou o rio e entrou no Rio Grande do Sul. A geografia mudou. Os campos eram bem maiores, e as cores tinham tonalidades diferentes. Mas isso já não me importava. Eu já estava realizado !

Eu só pensava em como eu estava profundamente feliz e emocionado por conseguir ver tudo aquilo !! Durante toda minha infância e adolescência, eu tinha olhado para aqueles campos. Por todo aquele tempo eu olhei pro horizonte daquelas colinas, querendo saber o que é que tinha do outro lado.

Muitas vezes caminhei, sozinho ou com meus amigos, nos campos de Jaborá, no velho oeste catarinense, procurando um lugar mais alto para avistar mais longe, além das colinas. Mas só se viam campos e mais campos, colinas e mais colinas, com as tonalidades do trigo, do milho, da terra arada, queimada. Depois dos capões de mato perdido nos campos, ou dos matos maiores que ainda resistiam as plantações, avistavam-se as colinas e depois delas o horizonte.

Me dei conta de que realizei o sonho de ver através do horizonte de todos aqueles campos. Vi pra onde eles iam, vi suas fronteiras, vi onde acabavam. E tudo isso aconteceu por uma série de acontecimentos não programados. Não programados ?? Sei lá. Só sei que foi muito emocionante e imprevisto. Então eu pensei em escrever e pra compartilhar um pouco da minha felicidade em viver essa experiência.

Abraço pra quem é de abraço e beijo pra quem é de beijo,
Yanto

Horizontes e Precipícios – vídeos do show

Eba ! Tô muito feliz porque, após vários meses de trabalho, conseguimos disponibilizar a lista completa dos vídeos do show de lançamento do meu primeiro disco solo Horizontes e Precipícios. Aqui está uma lista de acesso rápido e, nas postagens que seguem abaixo, estão todos os vídeos, cada um com um texto. Comentários sobre os vídeos são bem vindos aqui e no youtube!

Horizontes e Precipícios
DVD Divulgação – Ao Vivo no Theatro São Pedro

01 – À Beira de Um Precipício
02 – Dinheiro no Chão
03 – Fim da Tarde
04 – Meus Inimigos Caíram
05 – Promessas
06 – Neo Hippie
07 – Charly Tomó Demás
08 – A Flor Que Nasce
09 – Meu Amor
10 – Porto Alegre Blues
11 – Imbecil
12 – Eu Não Sou Daqui
13 – Não Te Quero Mais
14 – Como Matar um Planeta

Obrigado e parabéns para toda a equipe: Tula Anagnostopoulos (montagem), Marcelo Bacchin (direção artística), Rafael Dutra e Start Video (equipe de filmagem), Amarello Rodrigues e Alisson Moura (câmeras na platéia), Thomas Dreher (engenheiro do som), Junior Ribeiro (captação áudio), Vicente Saldanha (cenário), André Domingues (desenho de luz), Filipe Narcizo (baixo e vocais), Duda Cunha (bateria, percussão e voz) e Ricardinho Diesel (técnico de palco). Obrigado também à toda a equipe do Theatro São Pedro e à Opus Promoções pelo grande apoio.

O disco pode ser baixado gratuitamente no meu site: www.yantolaitano.com.br