Libertad

Depois de uma série de fatos, ou coincidências, que aconteceram comigo em 2012, fui parar em Cuba onde fiz três apresentações e gravei um clipe.

O convite veio através de uma carta que recebi da jornalista cubana Bolivia Tamara Cruz Martínez. Ela me convidava para tocar no Centro Cultural “El Mejunje”, que fica na cidade de Santa Clara, capital da província de Villa Clara em Cuba. Dias depois encontrei, por acaso, um dos organizadores de uma comitiva do governo do estado do Rio Grande do Sul que viajaria para participar da Feira Internacional de Havana. Ele já tinha me ouvido tocar algumas vezes e, quando soube da tal carta que recebi, me convidou para participar da comitiva tocando em eventos da agenda oficial da viagem. Aceitei e, em menos de um mês, desembarquei naquela belíssima ilha caribenha.

Eu era o único músico no meio de muitos empresários e alguns diplomatas. Fiz um show em Havana, no Melia Habana, e dois em Santa Clara, cidade chave na Revolução Cubana. Em Santa Clara, toquei na peña cultural “La casa como un árbol” e no maravilhoso “El Mejunje”. Andei em lugares cheios de turistas, em outros bem longe das lentes estrangeiras e fiquei muito impressionado com tudo que vi, com as coisas boas e as ruins. No meio daquele experiência intensa eu escrevi uma canção chamada “Libertad”, uma homenagem a “Los Cinco” de Cuba e a todos os homens e mulheres privados injustamente de suas liberdades. Musicalmente, é uma mistura de candombe, ciranda e ijexá, ritmos de raiz africana e música pop.

Incluí a nova canção nos shows de Santa Clara e, quando voltei para Havana, vi surgir a oportunidade de gravar um clipe com alguns jovens cineastas brasileiros da Escuela Internacional de Cine, escola de cinema criada por Gabriel García Marquez. Rodamos o clipe pelas ruas do centro antigo de La Havana. Como eu ainda não tinha a música gravada, tive que cantar ouvindo a marcação de tempo de um metrônomo que coloquei no bolso. Meses depois eu gravei a música em Porto Alegre, usando a mesma marcação de metrônomo, o que possibilitou sincronizar as imagens com a música.

Centro antigo de La Havana com a baía ao fundo.

 

Depois que voltei de Cuba, a música me pareceu panfletária demais. Então, eu a coloquei em uma gaveta por dois anos até que, em dezembro de 2014, com a histórica reaproximação entre Cuba e Estados Unidos, os cinco cubanos foram libertados. Isso fez com que eu passasse a ver a música de uma maneira diferente. Não me parecia mais algo panfletário mas sim algo como uma celebração. Por isso, decidi lançar o material.

Não sabemos quantos homens e mulheres encontram-se presos injustamente no mundo, na América Latina ou no Brasil. Não sabemos nem os nomes da maioria deles. Uma dessas pessoas se chama Rafael Vieira, negro, morador de rua que está preso desde junho de 2013 porque carregava um frasco de Pinho Sol e outro de água sanitária durante uma manifestação no Rio de Janeiro. Essa canção também é dedicada ao Rafael e a todas as pessoas que estão e/ou já se encontram em situações semelhantes.

O clipe foi filmado por Etiene Faccin e João Gabriel Riveres, editado por Tula Anagnostopoulos, que assinam a direção em conjunto. A música foi gravada, mixada e masterizada no Estúdio Dreher e contou com a participação dos músicos Duda Guedes (bateria, percussão, coro), Beto Chedid (violões, charango, guitarra, coro) e Filipe Narcizo (baixo elétrico).

 Clique aqui para ver o clipe.

Y~

Minha última conversa com Nico Nicolaiewsky

Fevereiro de 2015. Faz um ano que o meu querido amigo Nico Nicolaiewsky partiu. Resolvi escrever este texto pra registrar alguns bons momentos e compartilhar algumas idéias que trocamos.

Minha última conversa com o Nico foi depois na minha casa, um apartamento no Bom Fim onde moro com minha mulher, Lu, e minha filha Cecília. A Lu fez um kibe maravilhoso e a Cecília tocou piano para nós. Quando ela cantou o tema de Pokemon, o Nico ficou muito feliz e disse que ela fazia uma baixaria (os baixos tocados pela mão esquerda) que ele mesmo não fazia.

Depois que a maioria dos amigos foi embora, a Lu e a Márcia, esposa do Nico, ficaram na mesa conversando enquanto eu e o Nico sentamos estrategicamente em sofás perto da sacada para bebermos e fumarmos sem incomodar ninguém.

Nossa conversa foi se encaminhando para um assunto que músicos costumam gastar intermináveis noites, geralmente sem chegar a nenhuma conclusão: o “sucesso”. Sucesso escrito assim mesmo entre aspas pra deixar claro que é um termo relativo e questionável além de batido e frequentemente usado de maneira superficial. Uma conversa sobre esse tal de “sucesso” pode descambar tanto numa filosofia barata mas divertida de boteco, quanto pode se mostrar como uma conversa realmente reveladora.

Nico e Yanto

Falamos dos nossos discos, como tinham sido feitos e como tinham sido recebidos pelo público e mídia. Eu falei sobre o disco da minha antiga banda, a Bili Rubina, que foi composto e gravado para que todas as suas músicas fossem radiofônicas e comerciais, exceto uma, e como justamente essa música tinha sido a que realmente tocou muito, a ponto de ser considerada um “sucesso”. Também falei que depois disso nunca mais tinha composto ou gravado algo pensando na questão radiofônica/comercial.

Então o Nico contou sobre o seu disco “Onde está o amor” que, além de ter sido lançado com ampla divulgação local, foi bastante trabalhado no centro do país por um renomado divulgador de São Paulo. Ele me disse: Sabe quantas consultas eu recebi pelo ‘Onde está o Amor’? Nenhuma! “Nenhum pedido de orçamento, nenhum show vendido”. “Eu ia nas entrevistas pra divulgar o disco e me perguntavam como estava o Tangos & Tragédias!”.

E seguimos falando como todas essas coisas que nós, artistas, realizamos, que dão certo ou que dão errado, na verdade não importam muito. Não importam porque um artista que faz algo de verdade, no fundo, não faz pra ser um sucesso ou pra ganhar dinheiro. Essas coisas são secundárias! Nós compomos, tocamos, gravamos e lançamos discos por uma necessidade artística. E Nós realizamos todas essas coisas porque elas gritam dentro de nós. Um artista tem uma necessidade vital de fazer com que essas coisas saiam da sua cabeça e de seu coração e ganhe vida. Mesmo que seja um disco que ninguém escute. Mesmo que seja um show que ninguém assista.

E era um tango.

Quando um artista se dá conta de que é esse o verdadeiro motivo, ele vê que a arte que ele faz não é para agradar a ninguém, a não ser ele mesmo. Além disso, fazer concessões para tornar uma obra artística mais aceitável, ou inaceitável, é uma grande bobagem. Então, nesse ponto da conversa, um alívio pairou no ar. Eu e Nico enchemos mais uma vez nossos copos e encostamos nos sofás, sorridentes, compartilhando um silêncio bom. Era como se uma verdade muito importante tivesse sido dita. E acho que foi mesmo.

Outra hora eu escrevo sobre algum outro papo que tivemos. =)

Ah, essas fotos no piano azul do Nico são de uma outra vez.

Abraços

Tudo é Inglês

Tudo é em inglês nesse Brasil: O nome da loja de roupa, de brinquedo, o salao de beleza, a vídeo locadora, as peças do computador, o nome dos produtos, das bandas, das tribos urbanas, as gírias, os termos, tudo é inglês.

Nós brasileiros, em geral, pensamos que as coisas soam melhor, são mais bonitas e tem mais credibilidade em inglês.

Se na hora de batizar uma loja, um bar, um produto ou uma banda, surge um nome em português ele dificilmente soa bem. Mas é só falar ou escrever o nome em inglês e pronto! O nome fica importante, charmoso, cinematográfico. É preciso pensar muito para criar um bom nome na língua pátria. Mas isto não é à toa… fomos levados a pensar assim através de um longo processo que tinha, e tem, o objetivo de nos manter como uma colônia.

Então qualquer coisa em inglês soa bem. Em português não… parece coisa de pobre, parece coisa de tupiniquim. E assim, por preguiça, a gente papa capim.

Do jovem publicitário que quer conceituar o seu produto ao velho senhor que vai pintar o letreiro do seu boteco, passando pela moça que busca um nome para a sua lojinha, todos usam nomes em inglês. Mas a maioria mal sabe dizer o que significam.

Mesmo se o dono de um boteco, o seu Pedro, quiser ver seu nome no letreiro, ele coloca uma apostrofe e o “s” e fica “Pedro´s Bar”. Aí fica tudo bem. E assim, com pensamento de colônia, continuamos uma colônia dependente e submissa à metrópole. E nisso muito se perde, inclusive a língua.