Os Campos do Velho Oeste

Eu morei toda minha infância e adolescência numa cidadezinha do oeste de Santa Catarina cercada de colinas chamada Jaborá. Eu sempre olhava pro horizonte e queria saber o que tinha além daquelas colinas. Então comecei a subir até os lugares mais altos pra ver a paisagem e vi que sempre tinha outra colina, que parecia mais alta, à frente.

Isso, que vou contar, aconteceu em um dia qualquer de janeiro de 2007 mas a escrita só aconteceu em julho e agora, janeiro de 2012, resolvi postar. Nesse dia, por uma série de coincidências, eu tive uma visão fantástica e real de todas as colinas de uma só vez.

Fui convidado para representar um documentário, como autor da trilha sonora, no Festival de Cinema de Atibaia, São Paulo. Acabei passando uns dias agradáveis num belo hotel e recebendo uma menção honrosa da UNESCO como representante do filme.

Na volta, o avião decolou de Sampa com destino a Porto Alegre com um dia muito limpo e fui sentado no lado do avião que dava vista para a linha do litoral. O avião saiu em direção ao mar e logo, sobre Santos, desviou para o sul, acompanhando o litoral.

Quando entrou no Paraná, o piloto informou que por ordem do Cindacta II, o espaço aéreo por onde íamos passar estava fechado e que a rota foi alterada. Então o Boeing desviou para Curitiba e o piloto informou que o Cindacta II tinha fechado toda uma região aérea e alterou novamente a rota para seguiu para o Rio Grande do Sul via Chapecó.

Enquanto o Boeing voava a 35 mil pés, a geografia ia mudando rapidamente. Do imenso azul do mar e do amarelo da linha das praias, passou por um verde escuro da serra e para os campos do planalto de Curitiba. Pequenas cidades entre as plantações.

Aos poucos o verde amarelado desses campos foi trocando de cor. Eram umas cinco da tarde, o avião estava muito alto e o céu muito azul. O relevo continuava plano e vi surgirem rios longos e finos. As curvas do rio, prateadas pelo sol, serpenteavam em uma imensa região plana com campos amarelos e verdes mais vivos a se perder no horizonte.

Várias cidades de diversos tamanhos pontilhavam, distantes ou à margem dos rios, na longa região que eu via pela janela do avião. Somente algumas suaves elevações naquela geografia plana.

Por mais de meia hora o avião cruzou aqueles campos. Sempre iam surgindo rios entre regiões imensas de campos com formatos retangulares, tamanho regular e de uma cor familiar: varias tonalidades de amarelos e verde, um vermelho-terra bem forte e algumas manchas verde-forte com formatos irregulares. Avistei muitas cidades, e aglomerados de cidades pequenas e médias entre os campos ou à margem dos rios ao longo de extensas áreas.

Naquele cenário imenso também foram surgindo algumas construções brancas que aos poucos foram ficando cada vez mais freqüentes. Eram aviários. Galinheiros ! Em um momento, vi algumas poucas construções bem maiores, que descobri pelo Google Earth serem fábricas de celulose.

Então surgiu ao longe um rio gigantesco, o Uruguai, muito mais extenso do que os outros e que acompanhava a linha do horizonte da minha janela. A cor dos campos era muito familiar. Eu tinha visto cada uma daquelas cores durante muitos anos. Vi cidadezinhas que pareciam muito próximas vistas daquela altitude, mas que, eu sabia, eram muito mais longe do que pareciam ser.

O rio Uruguai foi aumentando no meu campo de visão. O imenso rio seguia formando enormes curvas, braços, e se espalhava como lagos. Os aviários foram aos poucos, tornando-se a construção mais freqüente e alguns eram ainda maiores do que os anteriores.

Então, o avião sobrevoou Chapecó, uma cidade bem maior que todas as outras que tinham aparecido naquela meia hora. Quando o Boeing virou para o sul, inclinando-se levemente para a esquerda, toda região que tínhamos sobrevoado surgiu no meu campo de visão.

O avião cruzou o rio e entrou no Rio Grande do Sul. A geografia mudou. Os campos eram bem maiores, e as cores tinham tonalidades diferentes. Mas isso já não me importava. Eu já estava realizado !

Eu só pensava em como eu estava profundamente feliz e emocionado por conseguir ver tudo aquilo !! Durante toda minha infância e adolescência, eu tinha olhado para aqueles campos. Por todo aquele tempo eu olhei pro horizonte daquelas colinas, querendo saber o que é que tinha do outro lado.

Muitas vezes caminhei, sozinho ou com meus amigos, nos campos de Jaborá, no velho oeste catarinense, procurando um lugar mais alto para avistar mais longe, além das colinas. Mas só se viam campos e mais campos, colinas e mais colinas, com as tonalidades do trigo, do milho, da terra arada, queimada. Depois dos capões de mato perdido nos campos, ou dos matos maiores que ainda resistiam as plantações, avistavam-se as colinas e depois delas o horizonte.

Me dei conta de que realizei o sonho de ver através do horizonte de todos aqueles campos. Vi pra onde eles iam, vi suas fronteiras, vi onde acabavam. E tudo isso aconteceu por uma série de acontecimentos não programados. Não programados ?? Sei lá. Só sei que foi muito emocionante e imprevisto. Então eu pensei em escrever e pra compartilhar um pouco da minha felicidade em viver essa experiência.

Abraço pra quem é de abraço e beijo pra quem é de beijo,
Yanto