Minha última conversa com Nico Nicolaiewsky

Fevereiro de 2015. Faz um ano que o meu querido amigo Nico Nicolaiewsky partiu. Resolvi escrever este texto pra registrar alguns bons momentos e compartilhar algumas idéias que trocamos.

Minha última conversa com o Nico foi depois na minha casa, um apartamento no Bom Fim onde moro com minha mulher, Lu, e minha filha Cecília. A Lu fez um kibe maravilhoso e a Cecília tocou piano para nós. Quando ela cantou o tema de Pokemon, o Nico ficou muito feliz e disse que ela fazia uma baixaria (os baixos tocados pela mão esquerda) que ele mesmo não fazia.

Depois que a maioria dos amigos foi embora, a Lu e a Márcia, esposa do Nico, ficaram na mesa conversando enquanto eu e o Nico sentamos estrategicamente em sofás perto da sacada para bebermos e fumarmos sem incomodar ninguém.

Nossa conversa foi se encaminhando para um assunto que músicos costumam gastar intermináveis noites, geralmente sem chegar a nenhuma conclusão: o “sucesso”. Sucesso escrito assim mesmo entre aspas pra deixar claro que é um termo relativo e questionável além de batido e frequentemente usado de maneira superficial. Uma conversa sobre esse tal de “sucesso” pode descambar tanto numa filosofia barata mas divertida de boteco, quanto pode se mostrar como uma conversa realmente reveladora.

Nico e Yanto

Falamos dos nossos discos, como tinham sido feitos e como tinham sido recebidos pelo público e mídia. Eu falei sobre o disco da minha antiga banda, a Bili Rubina, que foi composto e gravado para que todas as suas músicas fossem radiofônicas e comerciais, exceto uma, e como justamente essa música tinha sido a que realmente tocou muito, a ponto de ser considerada um “sucesso”. Também falei que depois disso nunca mais tinha composto ou gravado algo pensando na questão radiofônica/comercial.

Então o Nico contou sobre o seu disco “Onde está o amor” que, além de ter sido lançado com ampla divulgação local, foi bastante trabalhado no centro do país por um renomado divulgador de São Paulo. Ele me disse: Sabe quantas consultas eu recebi pelo ‘Onde está o Amor’? Nenhuma! “Nenhum pedido de orçamento, nenhum show vendido”. “Eu ia nas entrevistas pra divulgar o disco e me perguntavam como estava o Tangos & Tragédias!”.

E seguimos falando como todas essas coisas que nós, artistas, realizamos, que dão certo ou que dão errado, na verdade não importam muito. Não importam porque um artista que faz algo de verdade, no fundo, não faz pra ser um sucesso ou pra ganhar dinheiro. Essas coisas são secundárias! Nós compomos, tocamos, gravamos e lançamos discos por uma necessidade artística. E Nós realizamos todas essas coisas porque elas gritam dentro de nós. Um artista tem uma necessidade vital de fazer com que essas coisas saiam da sua cabeça e de seu coração e ganhe vida. Mesmo que seja um disco que ninguém escute. Mesmo que seja um show que ninguém assista.

E era um tango.

Quando um artista se dá conta de que é esse o verdadeiro motivo, ele vê que a arte que ele faz não é para agradar a ninguém, a não ser ele mesmo. Além disso, fazer concessões para tornar uma obra artística mais aceitável, ou inaceitável, é uma grande bobagem. Então, nesse ponto da conversa, um alívio pairou no ar. Eu e Nico enchemos mais uma vez nossos copos e encostamos nos sofás, sorridentes, compartilhando um silêncio bom. Era como se uma verdade muito importante tivesse sido dita. E acho que foi mesmo.

Outra hora eu escrevo sobre algum outro papo que tivemos. =)

Ah, essas fotos no piano azul do Nico são de uma outra vez.

Abraços

2 ideias sobre “Minha última conversa com Nico Nicolaiewsky

  1. Yanto que blog tão bacana de ler.
    Leitura boa, inteligente, idéias colocadas com uma clareza.
    Esse texto do “sucesso” é de uma lucidez que apaixona o cara. É aquela conversa com a verdade que te convence que a coisa toda vale muito a pena.
    Vou seguir lendo aqui.

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